— Nietzsche
— Friedrich Nietzsche
Ela só tinha dezessete anos e já sabia como ser desprezível. Quando estávamos juntos quase nunca me olhava diretamente nos olhos, que é para quando o fizesse, sentir minha inquietação devido ao constrangimento que suas pupilas grandes e negras me causavam. A pele morena, os fios grossos, a boca pequena e os cheiro de flores selvagens. Tudo numa simetria de extremo ego natural da idade. Vez por outra, andava pelas ruas com uma fúria inefável, a boca inquieta. Nunca falava sério, com exceção de quando estava irritada.
Não me ensinou nada, não me acrescentou em nada. Serviu apenas como uma distração nos fins de semana livres em que não tinha aula de canto ou que precisava de alguém tocando seu corpo nu. Pela manhã, gostava que a chamassem por qualquer outro nome que não fosse o seu. Dizia que, dessa forma, sentia que havia nascido diferente de todos os outro dias; mas eu sempre a chamava de Lola, devido ao livro do Nabokov. É que era a nossa história mesmo, com alguns números trocados e alguns cheiros diversos.
Conheci-a numa loja de artesanato. Era proibido fumar ali, mas ela não se importou. Parece que estava esperando algum filho da puta vir lhe avisar. Eu era esse filho da puta, que, numa questão de segundos, não tinha mais nada a dizer depois daquele riso óbvio e os passos previsíveis para fora da loja. E, como você já deve imaginar, eu a segui. O resto da história é, sempre que contada por mim, a maior das mentiras, considerando que eu nunca vi graça ou sentido no que se ocorreu a seguir. Porém digo com toda a certeza do mundo que o que a fez virar a cabeça sobre os ombros foi o meu cabelo. Devia ser a única coisa que a atraia, já que era fã de Nirvana. A única coisa.
Era uma tortura o que fazia comigo. Odiava ler, mas me pedia para recitar versos ao seu ouvido enquanto praticava atos de prazer com o meu corpo. E como isso acabava com o meu tesão! Acho que sexo e poesia, ao mesmo tempo, são os piores venenos para um homem aos trinta e quatro. Lola adorava isso. Também adorava banho de sol nas entranhas. Também adorava ser observada e fingir que não sabia. Lola não pertencia a sua geração, com certeza. De certo fugiu de algum universo paralelo, talvez porque o meu eu naquele lugar não era bom o suficiente. Então veio me encontrar.
E ela tinha apenas dezessete anos quando a conheci, mas já possuía a capacidade esnobe de me fazer amar. Possuía apenas dezessete anos, mas já entendia de como viver a vida de uma forma que jamais nenhum ser narcisista soube em outro tempo.
Nicoli Sabino
Enquanto a areia da praia atravessava meus dedos pouco a pouco, o vento batia na mesma e meu rosto a recebia com ar de rejeição. Creio que essa cena repetiu-se por horas, durante minha viagem interna, onde os soluços são mais agridoces e os olhares menos distantes. Lembrei-me do meu pai. Os cabelos começavam a grisalhar quando ele passou a me chamar de “meu bem”. Os pés compridos, as mãos macias e o olhar secreto que me escondia tudo que eu sempre soube. A forma mais estranha de se expressar amor, é ensinando alguém a nadar. Ele o fez. Jogava-me vez por outra na parte mais funda do rio para ver se meus instintos reagiam, mas isso nunca funcionava. Eu, pequena e assustada, me sacudia como um pássaro tentando voar pela primeira vez, até ele nadar até mim, gargalhando, e dizer: “você precisa ser menos patife”. Então o fiz. Visitei o rio incontáveis vezes; sozinha. E aprendi a nadar. Depois disso, o amor foi ficando mais leve e seus cabelos grisalharam. A frase: “parabéns, meu bem!”. As formas de se expressar amor mudaram, mas eu nunca me esqueço das aulas de natação. Algo interessante, é que ele chorava muito. Muito, mesmo. Bastava ver um filme, conversar com a minha mãe ou ver o céu. As lágrimas simplesmente brotavam nos olhos e o sal escorria pela face, pouco a pouco, enrugada. O que me deprime em demasiado, é não ter lhe puxado essa sensibilidade do mundo. Quero dizer, eu não choro assim, tão fácil. Posso nadar, mas não chorar. Os únicos que tiram lágrimas dos meus olhos são o mar; e a lembrança do meu pai. E assim mesmo, não duram. Somente aquele homem poderia entender isso.
A areia da praia estava quente. O mar agitado e, de repente, eu estava concentrada. Ao sair de alfa, decidi me levantar; e chorar, só para o céu me notar.
Nicoli Sabino
— Cazuza
Eu tentei entender as coisas. Como se formou o Universo, como a mente trabalha suas hipóteses, como a ejaculação procede, como a gente vive e se esquece do que viveu. […] Acho que não sei como sentir. Na verdade, é como se todos os mandamentos sociais e as regras nunca tivessem existido e o entendimento recua voraz perante a minha aproximação. Suas ideias, ora claras, ora negras, agitam meu sangue e me faz sentir vontade de tirar a roupa. Gritar; urrar; gemer; soprar. O tinto perdeu o efeito, o fumo perdeu o cheiro e a sinestesia perdeu a beleza.
As angústias são moribundas, mas parece que o fim nunca se aproxima. Ela congela dentro do ser e, como a Aids, aguarda certo tempo até revelar seu beijo final.
— Nicoli Sabino


